Dirofilariose Canina: Verme do Coração e Hipertensão Pulmonar
A dirofilariose (filariose cardíaca) é causada por Dirofilaria immitis — verme que vive na artéria pulmonar e ventrículo direito, transmitido por mosquito. Endêmica em regiões tropicais e litorâneas do Brasil. Causa hipertensão pulmonar, insuficiência cardíaca direita e síndrome da veia cava. O tratamento adulticida é de alto risco — repouso absoluto é obrigatório.
O Golden Retriever de 5 anos de Niterói chegou com tosse e ascite. Morava próximo à Lagoa de Araruama. Teste de antígeno: positivo. Ecocardiograma: VRT 3,9 m/s, PSAP 64 mmHg; vermes visíveis na artéria pulmonar.
Dirofilariose classe III. Doxiciclina 28 dias → repouso absoluto 60 dias → protocolo moxidectina 3 doses.
O Repouso Absoluto — Por que É Vida ou Morte
A Morte dos Vermes e o Risco de Embolia
Quando a moxidectina mata os vermes adultos:
- Vermes morrem na artéria pulmonar
- Fragmentos e debris de vermes ficam na circulação pulmonar
- Com repouso: o fluxo pulmonar é baixo → fragmentos são fagocitados gradualmente → pequenas inflamações locais → cicatriz
- Com exercício: fluxo pulmonar aumenta → fragmentos são arrastados para artérias menores → oclusão → infarto pulmonar
O infarto pulmonar pós-adulticida com exercício pode ser fatal em horas.
O que "repouso absoluto" significa:
- Sem passeios — nem curtos
- Sem correr, pular, brincar
- Sair apenas para urinar/defecar em coleira curta
- Confinamento por 6-8 semanas
Wolbachia — A Bactéria que Amplifica o Dano
D. immitis carrega Wolbachia pipientis, uma bactéria endossimbionte:
- Quando os vermes morrem (pela moxidectina), a Wolbachia é liberada em massa → reação inflamatória intensa
- Doxiciclina mata a Wolbachia antes do adulticida → a morte dos vermes produz muito menos inflamação → menos tromboembolismo
Por isso a doxiciclina pré-adulticida reduz a mortalidade — não é antibiótico de suporte, é preparação imunológica obrigatória.
Síndrome da Veia Cava — A Emergência da Dirofilariose
Em infestações muito pesadas (> 25-50 vermes):
- Vermes transbordam da artéria pulmonar para o ventrículo e átrio direitos
- Obstrução do fluxo da veia cava caudal → sangue não retorna ao coração
- Hemólise intravascular: vermes mecânicamente destroem eritrócitos
- Hemoglobinúria: hemoglobina filtra pelos rins → urina vermelha-marrom
- Choque e morte sem intervenção
Tratamento: remoção manual dos vermes via veia jugular com pinça flexível (alligator forceps) → estabilização → adulticida semanas depois.
Prognóstico
| Classe | Tratamento | Prognóstico | |---|---|---| | I (assintomático) | Protocolo padrão | Excelente — cura | | II (moderada) | Protocolo padrão | Muito bom | | III (grave) | Protocolo + sildenafil | Bom com repouso rigoroso | | IV (síndrome veia cava) | Cirurgia + adulticida | Moderado | | Sem prevenção em área endêmica | Risco contínuo | Prevenível 100% |
Perguntas frequentes
O que é dirofilariose canina e como o cão se infecta?+
A dirofilariose canina (filariose cardíaca ou 'verme do coração') é causada por Dirofilaria immitis, um nematódeo filarídeo que, no estágio adulto, vive na artéria pulmonar principal e ventrículo direito dos cães. Ciclo biológico: cão com microfilárias é picado por mosquito; no mosquito: microfilária → L3 infectante em 10-14 dias; mosquito infectado pica outro cão → L3 migra pelos tecidos → jovem adulto → migra para coração; adultos maduros: machos 15-20 cm, fêmeas 25-30 cm; período pré-patente: 6-7 meses; vida útil dos adultos: 5-7 anos. Vetores no Brasil: Culex quinquefasciatus: principal transmissor; Aedes aegypti, Anopheles: transmissores secundários. Distribuição no Brasil: litoral (Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Nordeste) — alta prevalência; Manaus e Amazônia: muito alta prevalência. Patogênese: vermes adultos na artéria pulmonar → inflamação endotelial → hipertensão pulmonar; aumento de carga → obstrução do fluxo → hipertrofia e dilatação do VD → IC direita; síndrome da veia cava: carga maciça → vermes retrocedem para VD e átrio D → obstrução do fluxo da veia cava caudal.
Quais são os sinais de dirofilariose em cachorro?+
Os sinais evoluem com o grau de infestação. Classe I (leve): assintomático; microfilaremia detectada em exame de rotina. Classe II (moderada): tosse e intolerância ao exercício; hemoptise ocasional; dispneia de esforço; sopro em borda esternal direita (insuficiência tricúspide por HP). Classe III (grave): dispneia em repouso; ascite e edema de membros (IC direita estabelecida); hemoptise; síncope ao exercício; caquexia. Classe IV — Síndrome da Veia Cava: carga muito alta de vermes → vermes no VD e átrio D → obstrução da veia cava caudal; colapso agudo, hemoglobinúria (urina vermelha-marrom), hemólise; icterícia; mortalidade alta sem remoção cirúrgica. Achados de imagem: radiografia torácica: dilatação da artéria pulmonar, padrão intersticial, aumento da silhueta cardíaca à direita; ecocardiograma: HP (VRT elevada), dilatação e hipertrofia do VD; vermes visíveis como trilhos paralelos na artéria pulmonar.
Como diagnosticar e tratar dirofilariose em cachorro?+
O diagnóstico requer dois testes; o tratamento é de alto risco e requer repouso absoluto. Diagnóstico: teste de antígeno (ELISA): detecta proteínas da fêmea adulta; alta sensibilidade e especificidade; esfregaço sanguíneo ou Knott modificado: visualização das microfilárias circulantes; combinação de ambos os testes: diagnóstico definitivo. Tratamento adulticida (protocolo AHS): pré-tratamento doxiciclina 10 mg/kg/dia VO por 28 dias: elimina Wolbachia (bactéria endossimbionte dos vermes) → reduz a inflamação pós-adulticida; 60 dias de repouso antes do adulticida: reduzir a carga de trabalho cardíaco; moxidectina injetável (melarsomine): 2,5 mg/kg IM nos músculos lombares; dose 1 → aguardar 30 dias → doses 2 e 3 com 24h de intervalo: protocolo de 3 doses é mais eficaz; repouso absoluto 6-8 semanas após cada dose: os vermes mortos podem causar embolia pulmonar maciça se o cão fizer exercício; Classe IV (síndrome da veia cava): remoção cirúrgica dos vermes via jugular ou átrio D; somente então: tratamento adulticida após estabilização.
Como prevenir dirofilariose em cachorro?+
A prevenção mensal com macrolídeos é segura, eficaz e amplamente disponível no Brasil. Quimioprofilaxia mensal: ivermectina oral 6 µg/kg/mês: elimina as larvas L3/L4 antes que cheguem ao coração; milbemicina oxima 0,5 mg/kg/mês: alternativa — também elimina vermes intestinais; moxidectina tópica (Advantage Multi): aplicação mensal spot-on. ATENÇÃO — MDR1: Collie, Shetland, Border Collie: ivermectina pode ser neurotóxica; doses preventivas geralmente seguras mas milbemicina é alternativa mais segura. Quando iniciar: regiões endêmicas: a partir de 6-8 semanas de vida; testar antes de iniciar em cão adulto nunca testado: evitar macrolídeo em cão com microfilaremia maciça (reação anafilática). Controle de mosquitos: inseticida nos ambientes onde o cão dorme; telas nas janelas; evitar que o cão durma ao ar livre à noite nas regiões endêmicas. Protocolo de monitoramento: testar anualmente mesmo com prevenção.
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Tricuríase Canina: Trichuris vulpis, o Whipworm do Cão
A Tricuríase é causada por Trichuris vulpis — o 'whipworm' (verme-chicote) do cão, nematódeo que vive no cólon e ceco. É uma das helmintoses mais resistentes ao ambiente: os ovos de T. vulpis sobrevivem 5+ anos no solo. Causa diarreia mucossanguinolenta crônica e anemia em infecções graves. Diagnóstico: coproparasitologia (ovos com tampões polares — morfologia característica). Tratamento: fenbendazol 50 mg/kg por 3-5 dias (praziquantel NÃO tem efeito). Não é zoonose significativa para humanos — existe T. trichiura humana mas são espécies diferentes.
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