Saúde

Intoxicação por Beladona em Cachorro: Síndrome Anticolinérgica

A Atropa belladonna (beladona) e plantas relacionadas (Datura stramonium, Brugmansia) contêm alcaloides tropânicos (atropina, escopolamina, hiosciamina) que causam síndrome anticolinérgica — OPOSTA ao organofosforado: pupilas dilatadas (midríase), boca seca, taquicardia, retenção urinária, alucinações. Tratamento: fisostigmina IV (anticolinesterásico) + suporte.

30 de maio de 2026·1 min de leitura

O Dachshund chegou agitado, com os olhos completamente dilatados — as pupilas ocupavam quase toda a íris. A boca estava seca, a língua ressecada.

Não havia hipersalivação. Não havia miose. Não era organofosforado.

Era o oposto.

A tutora lembrou que havia Brugmansia (saia-branca) no jardim. Flores brancas em trombeta, muito comuns nos quintais brasileiros. Muito tóxicas.

O Espelho do Organofosforado

| Sinal | Organofosforado (excesso ACh) | Beladona/Datura (bloqueio ACh) | |---|---|---| | Pupilas | Miose (contraídas) | Midríase (dilatadas) | | Saliva | Hipersalivação | Boca seca | | FC | Bradicardia | Taquicardia | | Urina | Incontinência | Retenção | | Peristaltismo | Aumentado | Diminuído (íleo) | | SNC | Convulsões | Agitação, alucinações |

Plantas Anticolinérgicas Comuns no Brasil

| Planta | Nome popular | Partes tóxicas | Presença | |---|---|---|---| | Datura stramonium | Trombeteira, zabumba | Todas — especialmente sementes | Erva daninha comum | | Brugmansia spp. | Saia-branca, trombeta-dos-anjos | Todas — flores e folhas | Ornamental muito comum | | Atropa belladonna | Beladona | Todas — especialmente frutos | Cultivada |

Tratamento

| Medida | Protocolo | |---|---| | Fisostigmina | 0,02-0,06 mg/kg IV lento — antídoto específico | | Diazepam | Agitação/convulsões — 0,5 mg/kg IV | | NÃO usar | Acepromazina — agrava efeitos cardíacos | | Cateterismo vesical | Retenção urinária com distensão | | Carvão ativado | 1-4 g/kg se ingestão recente |

Perguntas frequentes

Como as plantas da família Solanaceae causam intoxicação anticolinérgica?+

A Atropa belladonna, o Datura stramonium (trombeteira), a Brugmansia (saia-branca) e outras Solanaceae tropicais são fontes naturais de alcaloides tropânicos que causam a síndrome anticolinérgica — o exato oposto da síndrome colinérgica dos organofosforados. Alcaloides tropânicos presentes: Atropina (DL-hiosciamica): o principal alcaloide da beladona; agonista muscarínico competitivo — bloqueia os receptores M1-M5; a mesma substância usada medicinalmente para bradicardia e bloqueio das secreções; Escopolamina (hioscina): potente anticolinérgico com maior efeito no SNC que a atropina — mais lipofílica → maior penetração cerebral → alucinações; Hiosciamina: isômero ativo da atropina; Mecanismo: os tropânicos bloqueiam os receptores muscarínicos da acetilcolina — o efeito é oposto ao dos organofosforados; onde os OFs causam SLUDGE (excesso de ACh), os tropânicos causam a síndrome 'seca e louca': boca seca, olhos secos, pele seca, taquicardia, midríase, retenção urinária; efeitos no SNC (principalmente pela escopolamina): agitação, alucinações, delirium, convulsões; a memória mnemônica anticolinérgica em inglês: 'Mad as a hatter, blind as a bat, red as a beet, dry as a bone, hot as a hare' (louco, cego, vermelho, seco, quente); Plantas no Brasil: Datura stramonium (trombeteira, zabumba): amplamente distribuída em áreas rurais e periferias; todos os partes são tóxicas — especialmente sementes; Brugmansia (saia-branca, trombeta-dos-anjos): ornamental muito comum em jardins brasileiros; flores grandes em forma de trombeta caída; folhas e flores igualmente tóxicas; Atropa belladonna: menos comum no Brasil mas presente como planta ornamental ou medicinal cultivada.

Quais são os sinais clínicos da síndrome anticolinérgica em cães?+

A síndrome anticolinérgica é facilmente reconhecível quando se conhece o padrão — e é o oposto da síndrome colinérgica dos organofosforados. Sinais periféricos (bloqueio muscarínico): Midríase (pupilas dilatadas): ao contrário da miose dos OFs; o cão parece ter os olhos como 'esferas' — pupilas que não contraem com a luz; pode causar sensibilidade à luz (fotofobia); Boca seca (xerostomia): ao contrário da hipersalivação do OF; mucosas secas e pegajosas; Taquicardia: ao contrário da bradicardia do OF; a frequência cardíaca pode chegar a 180-220 bpm; Pele seca e quente: sem sudorese (cães não transpiram como humanos, mas há efeito térmico); mucosas secas; Retenção urinária: bexiga bloqueada — cão não consegue urinar; distensão vesical palpável; Diminuição do peristaltismo: íleo paralítico — sem borborigmos; obstipação; Sinais do SNC (principalmente pela escopolamina — mais lipofílica): Agitação extrema e desorientação; Alucinações: o cão parece reagir a estímulos invisíveis — comportamento de 'fly catching' (tentar pegar moscas imaginárias); Ataxia; Convulsões; Coma em casos graves; Manifestações oculares: midríase persistente (não reage à luz); blefarospasmo (fechamento palpebral reflexo ao toque); Progressão: início: 30 min a 2 horas após ingestão; pico de sintomas: 2-6 horas; duração: alcaloides tropânicos têm meia-vida longa → sintomas podem persistir 12-24 horas sem tratamento.

Qual é o tratamento de emergência para intoxicação por beladona/Datura?+

O tratamento específico é a fisostigmina — um anticolinesterásico que aumenta a acetilcolina disponível para competir com os tropânicos. Tratamento específico: Fisostigmina (Antilírio): anticolinesterásico de ação central e periférica — aumenta ACh na sinapse para superar o bloqueio dos tropânicos; dose: 0,02-0,06 mg/kg IV lentamente (em 5 minutos); ação: melhora dos sinais centrais (agitação, alucinações) em 10-20 min; duração de ação: curta — 30-60 min; pode necessitar repetição; CONTRAINDICAÇÕES: asma brônquica, obstrução intestinal, bloqueio AV; a fisostigmina raramente está disponível em hospitais veterinários brasileiros; Descontaminação: indução de vômito: SOMENTE se ingestão recente (< 1 hora) e cão consciente e não agitado; carvão ativado: 1-4 g/kg VO — reduz absorção; catártico: facilita eliminação; Tratamento sintomático (mais comum na prática): Agitação/alucinações/convulsões: diazepam 0,5 mg/kg IV ou midazolam; NÃO usar fenotiazinas (acepromazina) — podem agravar efeitos cardíacos; Taquicardia grave: monitoramento — geralmente não requer tratamento específico se estável; Retenção urinária: cateterismo vesical para aliviar distensão; Temperatura: resfriamento se hipertermia; Suporte: fluidos IV, monitoramento ECG, oxigenioterapia; Cuidados de ambiente: o cão com síndrome anticolinérgica pode estar agitado e em delirium — ambiente escuro e silencioso reduz a estimulação.

Quais são as plantas anticolinérgicas presentes no Brasil e como prevenir?+

As plantas com alcaloides anticolinérgicos são mais comuns no Brasil do que muitos tutores percebem — especialmente o Datura e a Brugmansia, que crescem espontaneamente. Principais plantas anticolinérgicas no Brasil: Datura stramonium (trombeteira, maçã-do-diabo, zabumba): erva daninha de ocorrência espontânea em terrenos baldios, margens de estradas, quintal; flor branca ou lilás tubular; fruto com espinhos (como mação coberta de agulhas); TODAS as partes são tóxicas — especialmente sementes e folhas; cães podem mastigar as flores ou frutos caídos; Brugmansia spp. (saia-branca, trombeta-dos-anjos, floripondio): arbusto ornamental MUITO comum em jardins brasileiros; flores grandes em forma de trombeta pendente — brancas, rosas, amarelas ou laranjas; folhas grandes e macias; TODAS as partes são tóxicas; cão pode mastigar folhas ou flores caídas no chão; Solanum spp. (joá, jurubeba e outras): frutas (bagas) podem ter alcaloides (solanina + alguns tropânicos) — toxicidade variável por espécie; Physalis spp. (camapú): levemente anticolinérgica — toxicidade menor; Prevenção: identificar Datura e Brugmansia no quintal e na vizinhança; remover ou vedar acesso; a Brugmansia como planta ornamental: se tiver cão que mastiga plantas — considerar remover; ensinar o comando 'deixa'; Emergência: suspeita de ingestão → não esperar sintomas → veterinário imediatamente; levar amostra da planta ou foto para facilitar o diagnóstico.

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